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ESTADOS UNIDOS
Promessa cumprida
Ken
Kerschbaumer
A indústria de TV a cabo está pronta para
capitalizar o tão esperado potencial da interatividade.
O que aconteceu com o simples ato
de ver TV? Se acreditarmos nos provedores de serviços
interativos e nas MSOs, muitos assinantes de TV a cabo
poderão fazer essa indagação no próximo ano à medida
que o video-on-demand (VOD) e outros serviços interativos
passem do pavilhão de exposições para a sala de estar.
O setor verá alguns verdadeiros serviços interativos
nas experiências das MSOs, afirma Mitchell Kertzman,
presidente e CEO da Liberate Technologies, fornecedora
de plataformas de software para set-top boxes e para
a AOLTV.
É vasta a gama de serviços que
se espera estar disponível em casa através dos set-tops
digitais e dos servidores de conteúdo no headend. VOD,
e-mail, comércio pela TV (t-commerce), acesso à Internet,
a funcionalidade do PVR (leia matéria a seguir), o conteúdo
relacionado com a programação e a apresentação de cupons
eletrônicos são apenas o começo.
Os analistas prevêem um grande
futuro para a TV interativa. Segundo o Meyers Group,
este tipo de TV deve gerar uma receita anual de mais
de US$ 25 bilhões em 2005.
Algumas operadoras de TV a cabo
- Insight Communications, Time Warner e Charter entre
elas - já perceberam que o VOD e outros serviços interativos
podem impulsionar o aumento da receita e, ao mesmo tempo,
deixar os clientes satisfeitos. E todas as maiores MSOs
acreditam que os serviços interativos mantêm a promessa
para 2001.
A chave para os serviços interativos
são os set-tops digitais que estão sendo instalados
pelas operadoras americanas para oferecer novas modalidades
de programação. Os decoders digitais mais recentes,
que se parecem com mini-PCs, oferecem capacidade de
memória suficiente para prover serviços interativos
ricos em gráficos.
Opções
Apesar da prometida enxurrada
de novos fornecedores, a Motorola Broadband (ex-General
Instrument) e a Scientific-Atlanta continuam a dominar
o setor de set-top boxes. A Motorola mantém a liderança
do mercado de caixas digitais, com sete milhões de unidades
vendidas, e a Scientific-Atlanta ocupa o segundo lugar,
com 1,5 milhão de unidades. Mas esses são aparelhos
relativamente baratos, para serviços básicos. Para muitas
operadoras (e provedores de serviços interativos), o
cumprimento da promessa de interatividade depende de
conversores de valor mais elevado, como o DCT-5000,
da Motorola.
Quando esses set-tops estiverem
instalados, as operadoras de TV a cabo precisarão selecionar
uma plataforma e os serviços. A plataforma funciona
como um sistema operacional do conversor. Os atuais
protagonistas desse mercado são a Liberate, Microsoft,
OpenTV e PowerTV. Na opção de serviços, estão companhias
como a Intertainer, Diva, ICTV, Wink e RespondTV.
Um dos benefícios da tecnologia
digital é a capacidade de oferecer mais canais pay-per-view,
e um dos primeiros serviços interativos, o VOD, ampliará
ainda mais esta capacidade.
Acho que veremos todas as
oito maiores operadoras de TV a cabo dos EUA iniciando
as operações com o VOD ou testando-o até o fim deste
ano, declara David F. Zucker, presidente e CEO
da Diva Systems. Só em filmes, elas calculam um
aumento de receita por assinante de US$ 12 a US$ 14
mensais, e esta é uma das razões pelas quais o VOD terá
um impacto formidável na TV a cabo digital.
Os provedores de hardware e de
serviços para VOD destacam duas características para
o sucesso: ele deverá oferecer opções. Zucker diz que
os resultados das vendas da Diva mostram que quanto
mais filmes oferecerem, tanto maior é o volume das vendas.
E deverá proporcionar os meios para fazer pausa, avançar
ou voltar a imagem do programa.
O que qualifica o VOD como
um elemento interativo é que o compramos em forma assíncrona
e conseguimos ver nossa própria sessão personalizada,
temos o controle pleno dessa sessão, o que o torna interativo,
explica Steve Nussrallah, presidente e CEO da Concurrent
Computer, fabricante de servidores para VOD.
A Concurrent, a Diva e a SeaChange
são as três principais concorrentes no mercado de VOD.
Nussrallah diz que havia até julho seis operadoras de
TV a cabo oferecendo VOD: Cox San Diego e Phoenix, Time
Warner Tampa Bay e Oceanic Cable que instalavam sistemas
da Concurrent; a Time Warner Austin utilizou o SeaChange;
e a Charter usou a Diva em Los Angeles e a usaria em
Atlanta.
O que torna o VOD mais atraente
é que o custo dos servidores de vídeo - a essência desse
serviço - caiu 90% na década passada. Mas os operadores
de cabo devem mesmo adotar o VOD para se diferenciarem
dos DTHs. Algumas das outras idéias sobre TV interativa
parecem muito interessantes e é provável que sejam bem-sucedidas,
mas não são fáceis do assinante entender, observa
Nussralllah. O aluguel de filmes é fácil de entender
e de usar. E tanto Zucker como Nussrallah sublinham
que o VOD significará mais que apenas aluguel de filmes.
A plataforma de video-on-demand nos permite fazer
tudo: assinatura de VOD, de vídeos de música e de uma
grande quantidade de serviços que geram receita,
afirma Zucker.
Um serviço sobre o qual a Concurrent
está trabalhando é o que Nussrallah chama de canal de
vídeo personalizado. Este canal, ao oferecer funcionalidade
semelhante a de um TiVo ou ReplayTV, permitirá que o
telespectador acesse um guia eletrônico de programas
e veja os programas de televisão que já foram ao ar.
Por exemplo, uma operadora de
TV a cabo oferece acesso à programação das oito últimas
horas em 50 canais, armazenados em um servidor de VOD.
Canal personalizado
Um dos nossos servidores
tem a capacidade de fazer stream de cerca de 400 vídeos
e de 400 horas de armazenamento, explica ele.
Essas 400 horas de armazenamento podem ser oito
horas de gravação em 50 canais. Pode-se instalar 50
encoders na caixa e conservar as oito últimas horas
de programação nesses canais disponíveis no servidor.
A Concurrent está trabalhando
com um cliente para definir a interface com o usuário
do canal de vídeo personalizado, para que a operadora
de cabo distribuia o material armazenado para os canais.
Nussrallah espera testar o sistema no fim do ano ou
início de 2001. Zucker concorda com Nussrallah que serviços
como o do canal de vídeo personalizado serão uma forma
importante de oferta de VOD. A Diva demonstrou recentemente
suas possibilidades de operar com horários personalizados.
Estamos trabalhando com duas importantes operadoras
de TV a cabo, uma nos EUA e outra no exterior, para
lançar um serviço que opere com horários personalizados,
afirmou Zucker. A Diva testará o serviço no fim do ano.
O VOD, embora seja promissor em
matéria de receita, nem de longe esgota o potencial
dos serviços interativos. Os telespectadores em breve
terão os meios para pesquisar o conteúdo da TV em dados
estatísticos, informações sobre atores, ou até mesmo
para comprar produtos relacionados ao programa. Além
disso, recursos de computador como e-mail, agendas pessoais
e salas de bate-papo também encontrarão seu espaço na
tela da TV.
A idéia é que os telespectadores
consigam o que querem e quando quiserem, diz Richard
Baskin, chairman da Intertainer, um provedor de aplicativos
para a TV interativa. Num programa, a experiência
não é apenas passiva. Por exemplo, um telespectador
que assiste a um evento esportivo poderá ter acesso
a dados estatísticos, a resultados de lutas de boxe
e a outras informações.
Há uma série de decisões a serem
tomadas antes de se lançar serviços interativos. A primeira
é quais serviços serão oferecidos. Funções como e-mail,
agendas pessoais e guias de programação exigem um nível
de capacidade do set-top diferente daquele de surfar
na web ou de fazer t-commerce. Os serviços a serem oferecidos
darão à operadora uma idéia melhor sobre quais set-tops
e quais plataformas operacionais podem ser usados.
Mitchell Berman, vice-presidente
sênior de marketing mundial da OpenTV, descreve três
tipos de serviços. O primeiro é um overlay, uma camada
de informação sobreposta ao conteúdo de canais. Este
será oferecido gratuitamente aos clientes e servirá
para atrair a atenção do espectador. Os produtores dos
programas usarão ferramentas como as nossas para criar
conteúdo interativo que se pareça com aquele da televisão.
O segundo é um canal virtual,
como o fornecido pela Intertainer ou pela ICTV. Aí será
onde boa parte das atividades em t-commerce ocorrerá,
juntamente o acesso a e-mail ou a outros serviços. Berman
descreve-o como um shopping center eletrônico especialmente
criado para a TV. Ele poderia oferecer o que Baskin
acredita que poderá ser um sucesso: jogos. Há
modelos de assinaturas nos quais as pessoas estão desembolsando
US$ 10 mensalmente e passando até 30 horas mensais nesses
jogos, afirma ele.
O terceiro tipo permitirá o acesso
ao conteúdo da Internet através da TV.
Quando uma operadora de TV a cabo
decidir quais serão os tipos de serviços que ela quer
oferecer, será o momento de selecionar uma plataforma
(como a OpenTV, Liberate, MicrosoftTV ou a PowerTV,
todas equivalentes a um sistema operacional de computador)
para operar no set-top box.
O CEO da PowerTV, Steve Necessary,
afirma que é preciso levar em consideração a facilidade
do sistema ser integrado. Um sistema facilmente
integrável alivia muito o ônus da operadora. Há muitos
desafios na comercialização do VOD. Por isso, as operadoras
vão querer eliminar suas preocupações com esses problemas
.
Também tem que ser fácil integrar
novos serviços. Kertzman diz que é importante que a
plataforma se baseie em padrões, o que aumentará o nível
de conteúdo disponível. A tecnologia deverá ser fácil
de gerenciar, redimensionável e confiável: Não
queremos que os consumidores tenham de reinicializar
o seu set-top box ou a sua TV.
A decisão sobre a plataforma pode
ser difícil. A MicrosoftTV e a Liberate exigem grande
capacidade de armazenamento e, por isso, a sua venda
depende de caixas como o DCT-5000. Os set-tops atuais
podem oferecer serviços interativos, mas, pelas limitações
de disco, operam apenas com aplicativos leves.
A da OpenTV, por exemplo, pode
operar com o DCT-2000 da Motorola. Por mais de
dois anos estamos dizendo ao pessoal de TV a cabo dos
EUA que o problema não é o DCT-5000, diz Berman.
Sabemos que a Microsoft e a Liberate o estão esperando
porque o seu software é tão pesado que precisa do seu
poder de processamento. Ele crê que as operadoras
devem oferecer serviços interativos já, com o DCT-2000.
Se quisermos operar VOD, ou serviços de Internet,
ou overlays de informações do Tonight Show,
observa ele, pode-se fazer diversas aplicações
no DCT-2000 enquanto se espera o DCT-5000.
Entretanto, tanto a Liberate quanto
a Microsoft sustentam que o uso da OpenTV atrela as
operadoras de cabo a uma tecnologia proprietária. Berman
rejeita essa idéia. Essa afirmação é simplesmente
uma forma de amedrontar a operadora, irrita-se
ele. As nossas interfaces de programação de aplicativos
(APIs) são públicas e estão disponíveis na web. Temos
mais de 300 desenvolvedores independentes em todo o
mundo que usam nossas ferramentas para desenvolver seu
próprio conteúdo e contamos com 29 fabricantes de conversores
que utilizam o nosso software. Então, como é que isso
está fechado? Esse é apenas um método típico de contenção
da competitividade.
A OpenTV encontrou um cliente
nos EUA. Procurando alcançar o sucesso obtido no Reino
Unido, onde 3,4 milhões de assinantes da BSkyB já recebem
via satélite o conteúdo interativo da OpenTV, a empresa
firmou um acordo com a DISH Network. Atualmente, 50
mil assinantes da DISH recebem da OpenTV um guia de
programação interativo e têm acesso a um serviço de
meteorologia.
Estamos conseguindo cerca
de 100 mil assinantes mensalmente, afirma Berman.
Se você compra um set-top box da Série 4900 da
DISH, o software da OpenTV já vem instalado. E as três
milhões de caixas atuais podem receber um download do
software em 15 minutos usando o Flash. Esperamos estar
em um milhão de set-tops até o fim do ano.
Mais veloz
O lançamento das caixas digitais
para TV a cabo continuará a oferecer maior velocidade
de processamento e capacidade de conferir poder de computação
à TV. Enquanto aumenta a capacidade de realizar serviços
mais complexos nos decoders, provavelmente crescerá
o volume do conteúdo interativo.
A idéia é permitir pesquisas em
outras áreas adjacentes a um programa, diz Baskin, da
Intertainer. Pode-se fazer uma pausa no vídeo
e acessar áudio, textos ou gráficos que sejam relacionados
ao programa. Essas informações e serviços serão
hospedados em dois lugares: no set-top e no headend.
O CEO e chairman da ICTV, Robert Clasen, diz que a abordagem
assumida pela sua companhia, que armazena o material
da Internet em um servidor no headend, pode oferecer
ao telespectador um ambiente de mídia de alta qualidade
livre dos solavancos da velocidade da Internet. Nossa
verdadeira força é essa: se uma operadora armazenou
no servidor algo como o site da MTV, os telespectadores
poderão transferir os vídeos armazenados no servidor
e assisti-los com qualidade de broadcast.
Para Clasen, o conteúdo armazenado
é como um VOD e se pode cobrar pelo acesso ao material.
Além disso, ele é renovado a cada 30 segundos, ficando
sempre atualizado.
É uma boa idéia contar com o headend
para oferecer poder de computação, segundo Kertzman.
Com o software no headend e no set-top, pode-se
oferecer níveis mais elevados de interatividade, comércio
e escala a milhões de assinantes com a confiabilidade
e a qualidade esperada. Zucker declara que uma
vantagem da armazenagem no headend é que se precisa
apenas de uma cópia para atender a todo o universo.
Assim, elimina-se a necessidade de um disco rígido em
casa.
Um importante desafio, ressalta
Clasen, será conceber o impacto dos canais de retorno
sobre a infra-estrutura. A interatividade precisará
do canal de retorno, seja para VOD, cable modems ou
telefonia sobre IP, explica. As operadoras
de cabo precisam saber o grau da capacidade a ser alocada
para o retorno. O pessoal de TV a cabo está aprendendo
isso através da tentativa e do erro.
A meta não é recriar uma experiência
de PC na TV, diz Kertzman. Nunca sentimos que
o que estamos fazendo é tentar substituir os PCs. Fazemos
um bom trabalho que possibilita surfar na
web, mas achamos que as pessoas ainda terão os PCs e
usarão a conexão em banda larga a partir da operadora
de cabo, o que representará receita adicional para ela.
Se alguém quiser simplesmente
introduzir a experiência do PC na TV, acrescenta ele,
arruinará a experiência da TV. Mesmo assim,
Baskin prevê que num período de cinco a 10 anos
não haverá diferença entre a TV e o PC. Teremos inteligência,
rede e vídeo e isso estará em toda nossa casa e veremos
algumas coisas na TV e outras no PC.
A relação entre o conteúdo para
a Internet e o conteúdo para a TV interativa exigirá
um trabalho progressivo nos primeiros dias da interatividade,
mas definitivamente existirá. A filosofia de criar
uma vez e publicar em todo lugar encontrará empresas
tentando alavancar o mesmo conteúdo através de diversas
plataformas. A Internet mostrou que pode ampliar o alcance
das marcas e oferecer novas informações; levar isso
para as telas da TV contribuirá para firmar essa consolidação.
Quando pensamos em conceber
nossa estratégia para a nova mídia, afirma Kevin
Tsujihara, VP executivo de novas mídias da Time Warner,
queríamos juntar a TV interativa com o que vínhamos
fazendo na Internet, porque haverá uma convergência.
Há uma sinergia no tipo de produção que está sendo criado.
Estamos desenvolvendo vários negócios na arena digital,
mas queremos deixar claro que há uma só voz.
Como Baskin, Tsujihara acredita
que a linha que existirá entre a TV interativa e a Internet
será imperceptível. Quando vemos um programa de
televisão e temos a possibilidade de enviar e-mail,
o que estamos fazendo?, indaga ele. A Time
Warner fez um investimento na OpenTV e estamos trabalhando
em alguns aplicativos para oferecê-los através dos set-tops.
Veremos a capacidade de mudar os ângulos da câmera ou
de acessar estatísticas dos jogos.
Essencial ao negócio
Grande parte da funcionalidade
do PC estará disponível através do controle remoto.
Isso é muito mais fácil para um grande número
de pessoas, porque, embora tenha havido uma incrível
penetração do PC, de 30% a 40% da população ainda não
têm computador pessoal, observa Tsujihara. De
forma que se pudermos deslanchar algo desse poder através
dos serviços interativos ou de t-commerce através da
TV, será importante.
Tsujihara acha que os que criam
conteúdo para a Internet vão querer aproveitá-lo nos
aplicativos da TV interativa. A convergência ocorrerá
para um número de pessoas. Sempre haverá pessoas que
queiram apenas ver jogos, mas haverá outras que vão
querer ver jogos, entabular um bate-papo e outras coisas.
É muito provável que o modelo
de negócio para Internet, distribuição em banda larga
e para a TV interativa, acredita ele, seja uma combinação
de microtransações, assinaturas de pay-per-play e publicidade.
As pessoas estão pagando por alguns serviços na
Internet. Se houver um valor para os consumidores e
se houver a utilidade que precisam, então o modelo funcionará.
Por fim, Kertzman afirma que é
um conteúdo de sucesso que determinará quem serão os
vencedores. A tecnologia não tem importância alguma,
diz Tsujihara.
Oferecer um alto nível de
interatividade é importante para assegurar que as MSOs
obtenham mais receita por assinante, reduzam o churn
e fidelizem os assinantes. Baskin concorda:
As pessoas não adotam uma
tecnologia, elas adotam uma mídia e o conteúdo. E elas
irão aonde esse conteúdo estiver.
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