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ESPECIAL - Internet em alta velocidade

CONTEÚDO

Produção já começou. Falta virar bom negócio

Murilo Ohl

Até agora, a iniciativa da prestação de serviços ficou por conta das empresas proprietárias de infra-estrutura de alta velocidade, que correram atrás de conteúdos para colocar em suas redes recém-chegadas ao mercado.

Durante o lançamento do Ajato, na Fenasoft de 1999, um executivo da TVA comentava: “alguém precisava dar o primeiro passo”. Seis meses depois, este cenário parece que finalmente vai se modificar. O fomento de fornecedores e de operadores de TV paga e telecomunicações surtiu efeito e deu segurança para que empresas e instituições invistam em projetos de conteúdo para Internet em alta velocidade.

É claro que a qualidade das transmissões em banda larga ainda precisa ser melhorada para seguir rumo à convergência total. Mas quem quiser participar do negócio não pode esperar até a definição de quais serviços serão oferecidos em banda larga. Pelo contrário, é o momento de entrar no negócio da criação de conteúdos broadband. O maior sinal disso é que todos os grandes portais têm projetos para a tecnologia e vários devem desembarcar no mercado nos próximos meses. Mesmo porque, há previsões de que nos EUA o acesso high-speed supere o dial-up já no início de 2002 (ver gráfico 3).

Entre as iniciativas de produtores de conteúdo e prestadores de serviços broadband já existentes no Brasil, se destacam dois usos diferenciados. Um deles é o conteúdo “aberto”, destinado ao público em geral e da qual fazem parte os sites de entretenimento e streaming media e as centrais de download. A Internet em alta velocidade também é extremamente adequada para serviços corporativos que exigem transporte de grandes quantidades de dados com segurança e rapidez. Videoconferência, tele-educação e criação de VPNs (Virtual Private Networks, ou redes virtuais privadas) são alguns destes serviços.

Dos conteúdos genéricos disponíveis, as experiências mais estabelecidas estão hospedadas nas páginas do Ajato, portal de conteúdo banda larga da TVA, há quase seis meses em operação. O site MediaCast, da LabOne, por exemplo, vem aglutinando uma série de vídeos exclusivos para Internet. Como o acesso broadband ainda é restrito, atualmente é possível navegar pelos vídeos utilizando três opções de velocidade (entre 56 kbps e 256 kbps). Marcos Lazarini, diretor de conteúdo, define o site: “O objetivo do MediaCast é ser o maior produtor brasileiro de áudio e vídeo para Internet.”

Entre os vídeos se destacam shows de jazz gravados pela equipe do MediaCast, dois boletins jornalísticos diários ao vivo, entrevistas com personalidades e até um longa-metragem, “Menino de Engenho” de Walter Lima Jr., para ser assistido via web. Grande parte do conteúdo é produzida pelo próprio MediaCast.

A visão de Lazarini sobre o mercado de Internet em banda larga no Brasil mostra que as oportunidades não só são ilimitadas como ainda estão para surgir. “Estamos na pré-história dessa nova mídia”, diz. “Assim como há cinqüenta anos profissionais vindos do teatro e do rádio inventaram os formatos que existem até hoje na TV, essa é a época de os profissionais das mídias modernas criarem os modelos que vão predominar na broadband.”

Lazarini entende que fazer conteúdos broadband não é apenas oferecer uma programação alternativa, que não passaria na TV. “A banda larga permite que os conteúdos sejam cada vez mais direcionados.” Segundo ele, a base da Internet é a interatividade e, no broadband, a relação do provedor de conteúdo com o usuário será de co-autoria. “A participação será um componente da criação. Uma pessoa vai decidir como receberá informação.”

Venda ativa

Como desenvolvedora de alguns dos sites de diversão disponíveis, como por exemplo o Museu Digital, a Rádio Totem e o Clube Ajato (bate-papo 3D), a Totem vem se preocupando em desenvolver conteúdos broadband bastante diferenciados, que possam lançar idéias sobre como serão os serviços broadband. O presidente da empresa, Eduardo Oliva Caetano, entende que a fase de lançamentos de produtos de entretenimento está consolidada.

“Já dominamos a tecnologia para desenvolver sites. Agora vamos associar os conteúdos com formatos comerciais.” A proposta é criar formas avançadas de comércio eletrônico, seja direto para o consumidor (business-to-consumer) ou entre empresas (business-to-business). Oliva entende que a banda larga será fundamental na evolução do e-commerce. “A interatividade desperta o desejo de comprar do consumidor. No modelo atual, a pessoa já entra na rede sabendo o que vai comprar. Com a alta velocidade, a Web será como um supermercado ou um shopping de onde você sempre sai com alguma coisa que não esperava comprar.”

A publicidade também deve ser mais interativa na banda larga. Oliva afirma que será possível fazer anúncios dentro das transmissões de streaming video. “Quando você sabe quem é o usuário, dá para mandar um anúncio personalizado para cada pessoa ou faixa de público.” Outra forma de publicidade, já aplicada no chat 3D da TVA, é a colocação de outdoors nos ambientes virtuais de bate-papo que vão substituir as salas que existem hoje.

A Totem produz também sites para o público infanto-juvenil, como o Projeto Meleca e a Rádio Meleca. Para Oliva, a banda larga vai aumentar as opções dentro dos games, já que a tecnologia permite que uma pessoa faça um download rápido durante o jogo. “Um jogador pode contar com mais alternativas para montar seus personagens, escolher veículos e armas e mudar de ambiente”, cita Oliva.

Com uma proposta de atuação independente, o site Justoaqui pretende se estabelecer como um guia de mídia de Internet em alta velocidade para o mercado brasileiro. A empresa é formada pela Lotier S/A e por dois sócios, o diretor Anwar Nassar e o presidente da fabricante de cable modems Terayon, Zaki Rakib. A estratégia do Justoaqui é atuar em três vertentes. A primeira delas é concentrar no site comentários e análises feitos por jornalistas e críticos especializados sobre os endereços que oferecem conteúdos broadband com seus respectivos links. A intenção, diz Nassar, é divulgar a idéia do que já existe em banda larga para o público em geral. Na outra ponta, provedores de acesso e de conteúdo terão uma oportunidade de descobrir e comparar os vários usos e formatos da tecnologia a partir de um único lugar.

Outra atuação do Justoaqui é concentrar várias informações sobre a tecnologia de Internet em alta velocidade na forma de tutoriais. “Será um site para que as pessoas possam tirar dúvidas sobre alta velocidade e saber como aproveitar ao máximo as vantagens que ela proporciona.”

O terceiro campo de atuação do Justoaqui será o comércio eletrônico voltado para a broadband. A idéia é vender produtos de software e hardware destinados a alta velocidade tanto para o mercado consumidor como para o corporativo.

Comunicação

A Internet em alta velocidade promete mudanças drásticas também na comunicação entre empresas, universidades, hospitais e outras instituições. A capacidade de transmissão de dados, voz e vídeo com qualidade vai aumentar consideravelmente e vai permitir que alguns serviços, como videoconferências, se tornem reuniões agradáveis. Já existem algumas experiências em andamento no setor corporativo no Brasil. A LabOne, empresa proprietária do MediaCast, já faz transmissões de streaming vídeo para clientes empresariais. Segundo Marcos Lazarini, uma das experiências mais interessantes da empresa nessa atividade foi a transmissão da coletiva de imprensa do anúncio da fusão da Rhodia com a Hoescht (que resultou na Aventis) para toda a América Latina. “Do local do evento, em São Paulo, fizemos um webcasting para mais de 15 países. De cada ponto, os jornalistas podiam fazer perguntas para os executivos como uma grande videoconferência.”

Da união do Grupo Algar com a Universidade de São Paulo e o Instituto do Coração de Uberlândia, nasceu o primeiro grande projeto brasileiro de telemedicina via Internet. A Engeredes, empresa associada ao Algar e proprietária de um backbone de telecomunicações que liga São Paulo, Brasília, Goiânia e Belo Horizonte, passando por municípios importantes dos Estados de São Paulo e Minas, comanda o projeto do grupo que conta também com a operadora de telefonia fixa local CTBC Telecom, a operadora de TV a cabo Image TV e outros parceiros que fornecem a last mile, além de uma série de provedores locais de conteúdos específicos para Internet broadband. O objetivo da Engeredes é fazer da experiência um exemplo para o mercado de telecomunicações. “Queremos provar que é possível oferecer este tipo de serviço no Brasil. Nossa idéia é fomentar projetos em banda larga”, diz Cláudio Ribeiro Silva, consultor de desenvolvimento de tecnologias estratégicas.

O projeto começou há pouco mais de seis meses quando as empresas firmaram convênio com a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e o Instituto do Coração de Uberlândia - cidades cobertas pela CTBC Telecom - para fazer webcasting de alta qualidade de operações e cirurgias. A transmissão de dados e de áudio e vídeo permite também que se ofereça treinamento à distância, transferência de arquivos pesados (como resultados de exames de tomografia ou ressonância) de um hospital ao outro e videoconferências para médicos e professores.

A Engeredes pretende continuar a investir em conteúdos profissionais para Internet em alta velocidade. Uma extensão natural é a oferta de serviços de tele-educação, uma vez que as parcerias com as instituições de ensino já estão encaminhadas e podem se estender a outras áreas além da medicina. Serviços corporativos de videoconferência também estão nos planos.

Alguns provedores de conteúdo .br
Ajato www.ajato.com.br
Justoaqui www.justoaqui.com.br
LabOne www.labone.com.br
MediaCast www.mediacast.com.br
Totem www.totem.com.br
TV Online www.tvonline.com.br
TV UOL www.tvuol.com.br