PESQUISA >>> PAY-TV News Revista PAY-TV
ESPECIAL - MMDS e LMCS

Acesso wireless pode ser a grande atração para o last mile

André Mermelstein *

MMDS e LMDS, também chamado de LMCS por conta de sua versatilidade, prometem ser os adversários de peso não só das teles mas também das operadoras de redes de cabo na luta pelo acesso local em banda larga.

As compras nos últimos meses da TCI, maior multioperadora norte-americana de TV a cabo, pela AT&T e de dezenas de operadoras de MMDS pelas então concorrentes Sprint e MCI podem ser consideradas o tiro de largada de uma corrida que promete fazer rolar milhões e milhões de dólares nos próximos anos. O alvo: o acesso local a empresas e residências.

Cada time recebe apoios e críticas inflamados. Se o cabo tem uma largura de banda de altíssima capacidade e muito pouco sujeita a interferências, seus adversários dizem que é um sistema caro e de implantação demorada, além de estar presente predominantemente apenas nas áreas residenciais. Os "cable guys", por sua vez, apontam a instabilidade dos sistemas de microondas sob condições climáticas adversas, que pode ser crítica para aplicações como telefonia, por exemplo, e a dificuldade de instalação em algumas regiões com muitas áreas de sombra e acidentes geográficos.

Se o cabo já é uma tecnologia bem conhecida e implantada com sucesso em boa parte do mundo, o acesso broadband wireless ainda é uma novidade na maioria dos países. Por isso tanta discussão sobre os modelos tecnológicos e de negócios a serem adotados. Dois sistemas, em particular, têm chamado a atenção dos investidores: o MMDS, tecnologia já "antiga" mas que só agora começa a ter suas capacidades exploradas além da simples transmissão de TV, e o LMDS (Local Multipoint Distribution System), também chamado de LMCS (Local Multipoint Communications System), termo preferido pela Anatel, ou BWA (Broadband Wireless Access), por sua capacidade de prover serviços de voz, vídeo e dados em banda larga.

Tecnologias complementares

Segundo Walter Poleto, gerente de vendas da ADC, fabricante de equipamentos para transmissão wireless, uma vez que o MMDS tenha o seu espectro ampliado, o que deve acontecer em breve, será possível oferecer serviços de dados, voz e imagem pelo sistema. "Num primeiro momento com o retorno por linha telefônica", explica, "passando para o retorno em microondas. E no futuro será utilizado o MMDS totalmente bidirecional para se fazer telefonia", conclui.

Com a experiência de quem já trabalhou na Sprint PCS e instalou redes LMDS em várias cidades do mundo todo, o engenheiro mexicano Guillermo Ramirez, atualmente na Velocom, aponta o enorme potencial das tecnologias wireless. "Nos EUA, só 15% das empresas têm acesso a fibras ópticas. No Brasil, então, o potencial do wireless é maior ainda", ele diz. Os sistemas instalados por Ramirez quando trabalhava na Formus, empresa que uniu-se à Velocom em setembro último, são um exemplo da flexibilidade da tecnologia: no Equador instalaram um sistema só para distribuição de sinais de TV, enquanto na Nova Zelândia foi instalado um sistema completo, com telefonia e acesso à Internet. Na Argentina foi montado um trial que deve oferecer também o serviço de rede privada virtual (VPN).

Flexibilidade, aliás, é um trunfo do LMDS. O sistema, explica Ramirez, pode ser assimétrico, com até 155 Mbps no download e 10 Mbps no upload, podendo ser adaptado às necessidades de cada usuário. Aguiar completa, dizendo que a operadora pode atender a um pedido de mudança de endereço em um prazo muito menor que em uma rede wireline (fixa), bastando o assinante levar sua unidade de interface para o novo endereço (verificadas, é claro, as condições de recepção).

Soluções híbridas

Provavelmente nos próximos anos os serviços não serão mais atrelados a uma única tecnologia, mas buscarão sempre combinar a forma de acesso mais adequada para cada região. Essa é a opinião da maioria dos observadores do mercado. Segundo Clelio Aguiar, gerente de marketing da fabricante de equipamentos Newbridge, cada tecnologia tem seu nicho. O LMDS, que atua em freqüências mais altas, tem uma cobertura menor, e requer células próximas para garantir qualidade de serviço. É adequado para áreas densamente povoadas e com alta demanda de capacidade. Já o MMDS tem menor capacidade, mas abrange áreas maiores, sendo próprio para setores residenciais, por exemplo. O LMDS porém pode ser configurado para áreas de características diversas. Ramirez, da Velocom, exemplifica contando que em Bogotá, na Colômbia, por exemplo, que tem um relevo urbano parecido com o de São Paulo, foram instaladas células a cada 800 m, enquanto em Lima, no Peru, foi possível colocar as células a mais de 4 km de distância.

Comparando as duas tecnologias, Poleto, da ADC, diz que o LMDS é um pouco diferente. Apresenta vantagens na largura de banda, mas tem desvantagens na propagação do sinal. Para que exista confiabilidade no recebimento é preciso um estudo mais detalhado da propagação dos sinais. O LMDS requer linha de visada e sua atuação deve acontecer em células menores, em áreas metropolitanas bem densas.

As duas tecnologias também podem atuar de forma complementar ao WLL, que já está sendo instalado no Brasil pelas empresas-espelho de telefonia fixa e pelas incumbents nas áreas onde a legislação permite. Hoje o WLL é mais barato por causa da escala, mas em breve as duas tecnologias devem concorrer.

Obstáculos

Como todo sistema novo, o LMDS ainda luta para superar uma série de barreiras até conquistar seu lugar no mundo das telecomunicações. Ramirez conta que uma das maiores dificuldades nos países onde trabalhou era conseguir mapas detalhados das cidades. Segundo ele, são necessários mapas tridimensionais, onde constem inclusive todos os edifícios, pois o LMDS exige linha de visada direta, e sem isso não é possível planejar uma rede. Outra lacuna apontada por ele é a de softwares de planejamento apropriados. "Como não existe nenhum feito para LMDS, tivemos que adaptar softwares de planejamento de redes de telefonia celular", conta Ramirez. A própria tecnologia está sendo constantemente modificada, principalmente, conta Aguiar, na ponta do usuário, onde as empresas tentam desenvolver caixas menores e com mais recursos. "Agora por exemplo estão saindo caixas com o protocolo V5.2 incorporado, que permite o compartilhamento de linhas", conta Aguiar. Ele menciona também a necessidade de sistemas de gerência de redes completos, que dêem suporte a todos os serviços oferecidos pela tecnologia.

Um fator apontado como um dos maiores limitadores do desenvolvimento da tecnologia no Brasil é a escolha das freqüências que serão designadas para o serviço. Na Argentina, conta Ramirez, foram selecionadas freqüências completamente diferentes das dos outros países. Isso implica em um alto custo de implantação, pois todos os equipamentos têm que ser adaptados. Aguiar completa e diz que não haverá problemas se a faixa ficar entre os 25 GHz e 29 GHz. Na Argentina as freqüências estão próximas dos 31 GHz.

* Colaborou Murilo Ohl