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ARTIGO
Combinando as vantagens do SIP com o
Packet Cable
Luiz Fernando Bourdot *
Há solução para o grande desafio
que é escolher entre um serviço de linha primária
baseado em PC ou um serviço alternativo baseado em SIP.
No principio não era o verbo. Quando Samuel Morse transmitiu
a citação bíblica “Que coisas Deus tem
realizado?”, de Washington para Baltimore, em 24 de maio de
1844, ele criou as redes de telecomunicações usando
o que hoje reconhecemos como um enlace digital de dados. A partir
deste experimento original, este meio de comunicação
se expandiu rapidamente com o surgimento de diversas companhias de
telégrafo. Passaram-se mais de 30 anos até que Alexander
Graham Bell também proferisse a sua frase famosa, chamando
o seu assistente Thomas Watson através da sua invenção,
o telefone. Nascia assim o sistema de telefonia analógica.
Desde então, as redes de dados e de telefonia vêm se
desenvolvendo, incorporando novas tecnologias e, de diversos modos,
competindo, sobrepondo-se, misturando-se e combinando entre si. O
advento de VoIP (Voz sobre IP) marca o fechamento deste ciclo, permitindo
que voz e dados convirjam finalmente, dando origem a redes e serviços
de telecomunicações unificados.
Uma das conseqüências desta unificação é a
excepcional redução na complexidade e no custo de implantação
de serviços de voz e de telefonia sobre redes de banda larga.
Com isto, abre-se a oportunidade para diversos novos entrantes neste
mercado, em particular para os operadores de redes a cabo. Outras
conseqüências importantes são as inovações
nas formas com que os usuários podem se comunicar e a quebra
de paradigmas centenários dos serviços de telefonia,
como o conceito de chamada local.
A idéia de VoIP consiste no envio de sinais de voz em pacotes
digitais ao invés da transmissão baseada em circuitos
que caracteriza as redes de telefonia convencionais. Esta transmissão
de sinais de voz é feita do mesmo modo que o utilizado para
transmissão de dados em empresas e na Internet. Além
disto, é feita uma separação entre os pacotes
de dados que transportam informação de voz e os pacotes
de dados que transportam informação de sinalização
(estabelecimento e encerramento de chamadas). Esta separação
proporciona eficiência no transporte da voz, usando sempre
os caminhos mais curtos, e flexibilidade no trato da sinalização. É este
principio que permite que uma ligação local entre dois
assinantes em Manaus possa ser estabelecida por um comutador (softswitch)
localizado em Porto Alegre.
Protocolos
O estudo da transmissão de voz na forma de pacotes é quase
tão antigo quanto as próprias redes comutadas de pacotes,
sendo que os primeiros experimentos datam da década de 70.
Ao longo dos anos, o desenvolvimento de algoritmos de compressão
de voz, das redes de dados e dos protocolos de rede conduziu ao estágio
atual de exploração comercial da tecnologia. Neste
período, diversas abordagens foram desenvolvidas e deram origem
a uma grande variedade de protocolos de transmissão e sinalização
para a comunicação multimídia.
Para o transporte dos pacotes com a informação de mídia
(voz, vídeo) sobre redes IP, o protocolo dominante é o
RTP (Real Time Protocol) que é adequado para aplicações
em tempo real. Já para a sinalização, não
existe um consenso similar e temos que nos familiarizar com siglas
tais como H.323, SIP, MGCP, NCS, MEGACO e outras. Cada um destes
protocolos tem características, vantagens e desvantagens,
associadas à sua origem. O protocolo H.323, por exemplo, foi
criado pelo ITU (International Telecommunications Union) e carrega
a visão do ambiente de telecomunicações, enquanto
que o SIP foi criado pelo IETF (Internet Engineering Task Force),
refletindo a visão do ambiente de Internet.
Consciente da enorme oportunidade para os operadores de sistemas
a cabo e da necessidade de estabelecer padrões de operação
e interoperabilidade, o CableLabs desenvolveu a arquitetura PacketCable
(PC) para prover serviços de telefonia com tecnologia VoIP.
Assim, quando se compara SIP e PC como duas alternativas à disposição
dos MSOs para lançarem seus serviços de voz, é preciso
ter em mente que, enquanto o SIP é simplesmente um protocolo
de sinalização, o PC é uma arquitetura completa
que engloba todos os elementos necessários para prover o serviço
de telefonia.
O objetivo que norteou a especificação do Packet Cable
foi o de permitir que, sobre uma infraestrutura DOCSIS fosse suportado
um serviço de telefonia com o mesmo nível de funcionalidade
e qualidade do Serviço de Telefonia Pública Comutada
(STPC). Esta abordagem é, portanto, similar ao da rede de
telefonia tradicional, com as funcionalidades fortemente integradas
em comutadores (softswitch) complexos e centralizados, conhecidos
como Call Management Servers. Ao mesmo tempo, a arquitetura contém
elementos altamente integrados com o padrão DOCSIS 1.1, sendo
capaz de alocar dinamicamente nos cable modems a banda necessária
para que o serviço de voz flua com qualidade.
O Packet Cable é um conjunto robusto de padrões perfeitamente
capaz de suportar as necessidades de um serviço público
de telefonia. Esta é a base que permite os operadores de cabo
competirem diretamente com as concessionárias por um serviço
de linha primária de telefonia. Entretanto, a arquitetura é centrada
no provimento de serviços de voz e não é extensível às
outras aplicações multimídia de grande apelo
que tem surgido rapidamente. Em comparação, uma arquitetura
baseada no protocolo SIP é muito mais simples, mais barata
e extensível para servir qualquer novo tipo de aplicação.
A versatilidade do protocolo SIP é fruto do seu conceito simples
e da semelhança com o HTTP, o protocolo padrão da Internet.
Legiões de desenvolvedores de hardware e software estão
continuamente criando sistemas e aplicações que redefinem
os padrões de funcionalidade e mobilidade. Isto significa
que estão sendo criados serviços muito mais interessantes
do que os serviços convencionais de chamadas locais e de longa
distância.
A consagração dos serviços de telefonia baseados
em SIP foi atestada com o lançamento do CallAdvantage da AT&T,
que veio se juntar a outros similares como Vonage e Lingo. Todos
eles oferecem números virtuais, mobilidade, portal web, unificação
de mensagens, gerência de presença e outras facilidades.
Tudo isto passando por cima, literalmente, dos operadores de acesso
de banda larga. Vale ressaltar, ainda como comparação,
que este tipo de mobilidade não pode ser obtido na arquitetura
PC.
O dilema que se apresenta para o MSO vai além da decisão
entre um serviço de linha primária baseado em PC ou
um serviço alternativo baseado em SIP, pois o operador vai
encontrar competição ferrenha nos dois campos, seja
através da concessionária, seja através dos
operadores “virtuais”. Mesmo considerando a posição
mais competitiva do MSO pela habilidade de ofertar serviços
agregados, a questão é se não é possível
combinar o melhor dos dois mundos, ou seja, ter toda a flexibilidade
do SIP aliada a qualidade do PC. A resposta é: definitivamente,
sim. Novamente, a solução vem através do CableLabs
que, atento à evolução da competição
no mercado, desenvolveu a arquitetura Packet Cable Multimídia
(PCMM). Esta arquitetura permite prover políticas e garantias
de qualidade para aplicações genéricas, inclusive
aquelas baseadas em servidores SIP. A combinação SIP & PCMM
realiza todo o potencial do operador de cabo, aliando a vantagem
do controle da rede de acesso com a enorme variedade de oportunidades
de negócios proporcionados pelas aplicações
baseadas em SIP.
* Luiz Fernando Bourdot é diretor de tecnologia da Vivax |