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ESPECIAL - As novas redes da TV por assinatura

INDÚSTRIA

Cadeia em movimento

Júlia Zillig

Com a tecnologia digital chegando, fornecedores agem em busca de novos negócios.

A digitalização das redes de TV por assinatura vem animando os fornecedores de equipamentos, que vinham sofrendo com a estagnação do número de assinantes no país. A aposta dessas empresas está exatamente na oferta de um pacote mais amplo, incluindo voz sobre IP, video-on-demand, pay-per-view, guia eletrônico de programação (EPG) e ferramentas interativas.

Outro aspecto é a questão da pirataria. Eles acreditam que as instalações ilegais serão combatidas com maior força a partir da implantação do cabo digital, propiciando o reaquecimento do setor.

Caminhos

A Harmonic, fabricante de headend, está trabalhando a todo vapor no acordo feito pela Net Serviços com um pool de fornecedores para a implementação do cabo digital. “Nós temos atuado, através de parcerias com outros fornecedores, em vários locais do mundo. O sucesso disso tudo é que utilizamos um padrão aberto, o DVB, que permite a interoperabilidade com equipamentos de fabricantes distintos. Ou seja, o cliente tem total flexibilidade de escolher com qual acesso condicional ou decoder deseja trabalhar”, explica Pedro San Miguel, gerente regional da empresa no Brasil.

O melhor aproveitamento da banda também é um dos pontos apontados por Pedro como positivos para as redes de TV a cabo digitalizadas. “Com a tecnologia, é possível que as operadoras utilizem suas bandas de forma otimizada, aproveitando mais seus recursos, e também aumentando o número de canais. Aspectos como esse vão movimentar positivamente este mercado”.

Em relação a financiamentos para as operadoras, a Harmonic diz ter um papel facilitador de negócios. “Nós oferecemos algumas vantagens de pagamento para nossos clientes antigos. Para os novos, apresentamos as instituições bancárias de nossa confiança, tanto dos Estados Unidos como da Europa, para conceder o crédito necessário. Mas antes é feita uma análise de crédito criteriosa”. Com a entrada da Harmonic neste filão de mercado, a empresa pretende crescer 25% nos próximos anos.

Mudanças

A Motorola está envolvida com a tecnologia digital em TV desde os anos 90. Mas é neste ano que a empresa está consolidando sua atuação neste segmento. Depois de ser preterida pela Net, que recusou o sistema proprietário da empresa, não arredou o pé das operações brasileiras desta área.

“Nossa plataforma sofreu várias modificações ao longo deste ano. Hoje existem uma série de fornecedores de decoders, softwares e aplicações que trabalham com a tecnologia de digitalização da Motorola”, explica Roberto Shigueo Suzuki, gerente de negócios da área de banda larga da empresa.

Um grande avanço da empresa foi o acordo feito com a Vivax para a implantação dos primeiros serviços digitais pela operação de Manaus. O investimento feito foi de R$ 6 milhões. As caixas da empresa serão fabricadas no México. O lançamento está previsto para janeiro de 2005. “O reflexo do crescimento do mercado brasileiro em TV digital a cabo vai se estender com certeza para os demais países da América Latina”, diz Shigueo. Além disso, deve manter no Brasil a oferta de produtos existentes, com destaque para os cable modems DOCSIS e para soluções de voz em IP.

Na opinião dele, alguns serviços se destacam com maior potencial de aceitação e crescimento, como é o caso do video-on-demand. “A tecnologia digital permitirá às redes criarem um portfólio de programação e fazer um melhor aproveitamento da banda. Além disso, se ela conseguir traçar os perfis de seu público, poderá trabalhar com pacotes fechados, tipo VOD. Com isso, o cliente ganha muitas vantagens pois pode escolher quando e qual filme que ele vai assistir, e na hora em que ele puder”. Segundo ele, isso vale também para o áudio digital e a disponibilização de canais de música, que levam para a TV o estéreo do rádio.

Shigueo enfatiza que o EPG vai revolucionar e trazer praticidade aos usuários de TV a cabo. “O usuário acessa na mesma tela uma programação de até sete dias e pode ainda colocar lembretes eletrônicos de aviso sobre o horário e o dia de um determinado programa que ele queira assistir”.

Voz sobre IP foi um outro serviço apontado por ele como promissor. “A VoIP está atravessando a última fronteira para chegar na TV a cabo. Será um grande aprendizado para as operadoras, pois é um mercado complexo e que vai competir também com os avanços tecnológicos da telefonia móvel”.

Soluções integradas

A digitalização do cabo sacudiu as atividades da Nagravision em 2003 e os reflexos disso foram sentidos neste ano, quando a empresa dobrou seu volume de negócios. Este fato fez com que a matriz da empresa suíça enviasse para o escritório brasileiro um representante da sede, Thierry Martin, para acompanhar de perto os negócios da empresa no Brasil. Segundo ele, o que possibilita à Nagra trabalhar com flexibilidade é, de novo, o sistema DVB. Segundo o executivo, cerca de 3/4 das operadoras mundiais utilizam este sistema para operação deste tipo de serviço. Atualmente a empresa trabalha com mais de 50 fabricantes de set-top box.

Martin acredita que haverá um aumento no número de usuários de várias classes sociais, uma ampliação no número de fornecedores de equipamentos, barateando custos e gerando vantagens para as operadoras. “A tendência é de que haja um entrosamento maior entre os fornecedores, formando um pool de empresas atuando com a mesma finalidade e criando condições melhores para apresentar soluções economicamente viáveis para as MSOs”.

“Com a tecnologia digital, houve uma baixa de preços nos equipamentos para as operadoras. Os novos equipamentos são mais baratos e estão saindo de uma massa crítica, e entrando para a TV a cabo digital”, explica Martin. A produção in house de set-top boxes irá contribuir ainda mais para o barateamento do serviços, devido à exclusão das taxas de importação.

O middleware também é outro grande avanço da TV digital a cabo, na opinião de Martin. “Esse recurso trará muita interatividade e amplitude de navegação para o usuário”. Os softwares utilizados hoje para a implantação deste serviço são de procedência americana e européia, não envolvendo ainda nenhuma empresa brasileira.

Além da Net, a Nagra está trabalhando com um projeto para tecnologia digital para a TVA, tendo a Harmonic, a DMT e a Live Wire como parceiras, para criar uma plataforma para a operadora.

Thierry analisa o mercado de TV a cabo digital de forma positiva. “O mercado de decodificadores para esta nova tecnologia poderá crescer muito. Sobrará espaço para as empresas que queiram explorar este segmento”. Ele diz que ainda não dá para mensurar o crescimento, em virtude das transformações que o setor está vivendo atualmente.

Em relação aos serviços, Martin avalia que há um espaço ilimitado para as operadoras aproveitarem ao máximo a criação de soluções criativas. E também aperfeiçoar os que são disponibilizados no sistema analógico, como é o caso do pay-per-view.

A criação do guia eletrônico também é apontada por Thierry como um avanço excepcional da digitalização da TV paga. “O consumidor pode acessar a programação através de uma tela dentro do próprio canal que está sendo assistido”. A conversão do sistema analógico para o digital é um processo inevitável, afirma Beth Erez, vice-presidente da NDS para Israel e América Latina. “No Brasil está acontecendo uma situação semelhante vivida pelos Estados Unidos no setor de TV paga digital. Os fornecedores também estão migrando para a tecnologia digital”.

Segundo ela, um dos fatores principais da entrada das operadoras de TV a cabo na tecnologia digital é a necessidade de competir com as operadoras digitais de satélite, com a vantagem de poderem oferecer o triple play, voz, dados e vídeo.

Crescimento

“O rápido crescimento de banda larga dentro das residências está aumentando a demanda para vídeo de alta resolução e sistemas de transmissão e de conexão de telecomunicações como DSL, fibra óptica e wireless broadband. Enquanto as linhas de alta velocidade estão se proliferando, cada vez mais as operadoras de cabo estão tentando alcançar esses mesmos lares utilizando as mais diversas ações. Isso faz parte de sua estratégia de oferecimento de soluções DVB com IP. O sucesso na utilização de banda larga depende da entrega do conteúdo de alta qualidade. Para isso, é necessário também assegurar que o conteúdo esteja protegido contra roubo (pirataria)”, diz Beth.

Atualmente a NDS está desenvolvendo um sistema para a MTV européia de transmissão de videoclipes via celular. “ A MTV adicionou aplicações interativas em seu sistema regular de transmissão. A finalidade delas era estimular a participação dos telespectadores, incentivando-os a ficarem plugados. Isso fez tanto sucesso na emissora que foi adicionado um canal interativo completo. Os jogos oferecidos foram projetados especialmente para medir a audiência do canal”.

Com um canal de retorno, a TV digital permite aos seus operadores fazer uma comunicação direta com seus clientes e oferecer uma gama de serviços, como compra interativa, jogos e votações. “Um bom exemplo disso é a BSkyB, DTH da Inglaterra, segundo maior cliente da NDS. Ela oferece uma ampla gama de serviços digitais e conta hoje com mais de 7,3 milhões de clientes com um ARPU de US$ 687. De seus rendimentos totais, a operadora pode atribuir US$ 554,8 milhões diretamente aos serviços interativos oferecidos aos assinantes”, diz a executiva.

Ela chama a atenção para uma conseqüência pouco comentada da digitalização: ela irá movimentar uma gama de recursos maior do que no sistema analógico. “O headend digital requer mais equipamentos e uma equipe de funcionários maior operando. A televisão digital oferece maior espaço na banda de transmissão, o que se traduz em uma necessidade de mais conteúdo, mais aplicações interativas, e assim por diante”, enfatiza Beth.

Hoje a NDS tem 40 plataformas de acesso condicional com 44 milhões de caixas, cerca de 30 plataformas de middleware com 20 milhões de usuários. “Estes números representam um crescimento de 28% em relação ao ano passado. Atualmente a NDS movimenta mais de 20 bilhões de dólares em receitas de serviços”, diz Beth”.